FUNDAMENTOS DA PRÁTICA PSICANALÍTICA

 

 

 

Podemos elencar como primeiro item dia fundamentos o abandono da abordagem hipnótica, abandono da sugestão. Na psicanálise o terapeuta não exerce comando, não diz o que o analisando deve fazer.

 

Freud percebeu que a sugestão podia fazer com que o sintoma desaparece, porém sempre retornava após algum tempo. A hipnose não dava conta de eliminar sintomas, pois mesmo em estado hipnótico, a mente criava respostas para não enfrentar verdadeiramente a origem do sintoma.

 

É a partir do abandono da sugestão que surge a livre associação, regra fundamental da psicanálise.

 

Ao entender que mesmo sob hipnose havia resistência, parte-se então para a análise do discurso livre do indivíduo. O analista agora estava ouvindo a resistência que surgia nas palavras desfiladas livremente durante uma sessão.

 

Quanto mais a pessoa fala livremente, mais ela consegue ir se percebendo nesse discurso é justamente por isso, não deve haver interferência do terapêuta.

 

A resposta vem do próprio paciente e não do “curador”!

 

O terapeuta que não sugestiona, não diz o que deve ser feito. Ele ouve e ajuda o indivíduo a perceber-se.

 

Essa sim é a terapêutica: perceber-se através do próprio discurso. Discurso esse que falado livremente, anuncia o que até então estava oculto, defendido no silêncio de si.

 

O indivíduo não fala sobre o assunto, justamente para manter o comportamento. Quando não falamos sobre algo, isso nos possibilita não termos que lidar com o que não é verbalizado.

 

Falar modifica a realidade. Ninguém resiste à falar, mas resiste a lidar com a mudança que surgirá a partir da conscientização surgida pela fala de si mesmo e de seus afetos.

 

Aquilo que não é falado fica reprimido e as resistências são camadas que “protegem” esse núcleo. A análise é o “descascar” essas camadas, tal qual uma cebola. O analista ajuda o analisando a descascar sua “cebola” até conseguir chegar ao núcleo patogênico de seu sofrimento e trauma.

 

A teoria tem por função estruturar uma prática que visa reduzir as resistências do analisando. O analista é aquele que irá deixar o analisando a vontade para falar de tudo aquilo que o afeta, inclusive aquilo que ele se sente compelido a esconder até de si mesmo.

 

Podemos entender que a resistência é alicerçada no complexo paterno e cabe ao processo analítico ajudar o indivíduo à superar a lei do outro.

 

O complexo paterno é uma série de entendimentos de regra que a criança “colheu” do ambiente, entendendo como as regras da casa, do ambiente. E a partir daí passa a conduzir sua vida, obedecendo essa lei e sempre sentindo medo de ser punido por tudo aquilo que vá contra tais regras.

 

O indivíduo vive temendo o que deseja, teme o que sente, pois entende que aquilo é marginal à regra e a partir daí estrutura a repressão. Ao sentir medo de ser punido pelo pai, pela regra, o indivíduo reprime e então surgem sintomas.

 

O indivíduo não faz análise porque teme. Teme a lei e a punição que será executada ao surgir a verdade no  discurso.

 

Ele se vê tendo que escolher entre o campo da verdade (campo do desejo) e o campo da autoridade. A verdade humana é a verdade do desejo humano. A psicanálise sempre estará interessada na verdade, pois é a repressão dessa verdade, feita em nome da lei, que irá estruturar o sofrimento do indivíduo, já que ele deixa de viver como deseja devido à uma lei externa, uma lei paterna.

 

Essa lei pode ser entendida como tudo aquilo que o analisando diz que é. O discurso sobre a ideia que tem de si mesmo. Cabe ao analista conseguir ajudar o analisando a desconstruir essa imagem ideal, pois ela foi construída para agradar a lei paterna e não a si mesmo.

 

Então resumindo:

 

A psicanálise abandona a sugestão para poder ouvir a verdade da boca do próprio analisando.

Essa verdade só poderá surgir no discurso livre.

Ao discursar livremente sobre si, ele vai se percebendo e percebendo a imagem que construiu de si mesmo para agradar a uma lei externa (a “lei do pai”, o complexo paterno, a autoridade).

E ao perceber a verdade de si surgindo, em detrimento da imagem ideal de si, o indivíduo começa a viver mais como deseja e não como queriam que ele vivesse.

Ao viver como se deseja, ou seja, ao diminuir as resistências operadas com o objetivo de barrar o desejo, os sintomas caem por terra e surge no lugar uma alegria de viver.

 

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